Em minha experiência no mundo corporativo, e na mentoria de executivos, tenho observado que, no auge de suas carreiras e com conquistas materiais evidentes, muitos expressam um sentimento de vazio, insatisfação ou a sensação de perdas. Muitos de nós vivemos sob a ilusão de que precisamos de “mais” – mais reconhecimento, mais status, mais poder – para alcançar a “satisfação plena” e nos esquecemos de considerar as contrapartidas.
Mas o que nos impulsiona nessa busca contínua, e quais são as perdas silenciosas — ou nem tanto — que pavimentam esse caminho? Quanto pode custar uma ambição sem limites para nossas vidas e bem-estar?
A fábula de Liev Tolstói, “De Quanta Terra Precisa o Homem?”, surge como uma parábola impactante que traz luz a essa questão. A história de Pakhom é um paralelo para a ambição desmedida na carreira e seus custos, revelando as perdas inevitáveis quando o “ter mais” está acima de tudo. É fundamental ter consciência do que está em jogo para fazer escolhas sobre o que verdadeiramente importa para cada um.
A HISTÓRIA DE PAKHOM E O IMPERATIVO DO "TER MAIS"
A parábola de Tolstói narra a jornada de Pakhom, um camponês que, apesar de ter o suficiente, é provocado pela ambição de sua cunhada e de sua própria esposa. Persuadido de que precisava ter “mais terra”, Pakhom declara que, com vastas posses, não temeria nem o próprio diabo. Mal sabia ele que o Diabo, ouvindo-o, aceitaria o desafio.
Se quiser ler a fábula completa, incluí um link no final desse texto
Pakhom começa a acumular lotes de terra, mas cada nova aquisição só intensifica seu desejo. Nunca é o bastante. Essa busca o leva a uma oportunidade única com os baskires: por um preço irrisório, ele poderia ter toda a terra que conseguisse circundar a pé em um único dia, desde que retornasse ao ponto de partida antes do pôr do sol. Se falhasse, perderia tudo.
Cego pela ganância, Pakhom corre incessantemente sob o sol escaldante, para abarcar o maior território possível. Contudo, ao perceber o sol se pondo, ele inicia uma corrida desesperada para voltar. Chega ao ponto de partida no último instante, mas cai morto de exaustão. A “terra” de que ele realmente precisava, no fim, foi apenas a medida de sua própria cova.
Para mim, a jornada de Pakhom ecoa a busca persistente de muitos profissionais por promoções, dinheiro, status e poder, sem nunca se sentirem “suficientes”. A cada novo patamar alcançado, aflora o desejo pelo próximo, numa corrida sem fim que exige trade-offs muitas vezes invisíveis.
A AMBIÇÃO NO CONTEXTO CORPORATIVO: VIRTUDE, ARMADILHA E SUAS CONSEQUÊNCIAS
A ambição é muitas vezes vista como uma virtude no mundo corporativo, impulsionando a ascensão e o engajamento de profissionais, especialmente executivos. As organizações valorizam e incentivam o desejo de crescer, a proatividade e que o profissional se entregue totalmente à causa da empresa. No entanto, quando a ambição se torna desmedida, ela pode se transformar numa armadilha, e levar a uma “captura subjetiva” pela cultura organizacional, onde o profissional se vê num ciclo de demandas crescentes, muitas vezes cego para as perdas (alienação).
Os “custos invisíveis” dessas escolhas podem ser elevados: o sacrifício de relações pessoais importantes, o comprometimento da saúde física e mental — burnout, ansiedade, etc. — a “flexibilização” de valores éticos, a perda do prazer nas pequenas coisas da vida e, por fim, uma alienação de si mesmo. O preço do “ter mais” acaba sendo a perda daquilo que, na verdade, mais prezamos.
A PERSPECTIVA ANALÍTICA: O VAZIO POR TRÁS DO DESEJO
O que a psicanálise nos diz sobre essa busca insaciável? O desejo, que nunca se satisfaz completamente – uma impossibilidade na Psicanálise –, pode ser erroneamente confundido com uma busca por objetos externos. Há uma ilusão de que o próximo “objeto” – seja um novo cargo, um salário maior, ou mais reconhecimento – preencherá uma sensação de vazio. No entanto, essa é uma busca sem fim, que pode fomentar angústia e infelicidade.
A validação externa também opera como um poderoso indutor. A necessidade de ser visto e reconhecido como “bem-sucedido” pelos outros, leva a sacrifícios que parecem justificados. O executivo se vê preso em uma performance para atender às expectativas alheias, muitas vezes desconectado de seus próprios valores e necessidades mais profundas.
A CONSCIÊNCIA DOS TRADE-OFFS
Nos meus mais de 30 anos de carreira corporativa lembro-me de ter enfrentado esse dilema várias vezes, quando priorizei o local que ia morar com minha família, abri mão de posições com altas demandas de viagens, de ofertas de trabalho, e de remuneração, “irrecusáveis”, da própria carreira executiva… Não posso dizer que a “tentação” não era grande, mas eu procurava estar atento a essa sensação de que algo importante estaria escapando: perda da autonomia sobre meu tempo, desconexão com pessoas que eu queria por perto,…
É a aquisição da consciência do que está em jogo, que entendo aumentar nossa liberdade de escolha. A capacidade de tomar decisões mais assertivas sobre os trade-offs e escolher o que verdadeiramente importa para cada um – em sua singularidade – é o que define uma carreira íntegra e mais equilibrada.
DE QUANTA "TERRA" VOCÊ REALMENTE PRECISA?
A história de Tolstói me ajuda a pensar com mais clareza sobre o que é o sucesso, sobre as forças da cultura — organizacional, familiar e mais ampla — que agem sobre mim, sobre a inevitabilidade de fazer escolhas, a importância de saber ‘o que está em jogo’ e o que realmente importa para mim. Mas essa é minha reflexão. E a sua?
Pense sobre sua jornada: quais são as ‘terras’ que você busca incessantemente? E o que você tem deixado para trás nessa corrida? A resposta está em sua capacidade de olhar para essas perdas com honestidade e escolher o que verdadeiramente importa para você. Cultivar uma “vida fora das corporações” pode ser um caminho para uma existência mais plena e alinhada com seu propósito singular.

